El Niño ‘muito forte’: o que está em jogo para a safra, a inflação e os juros no Brasil

El Niño ‘muito forte’: o que está em jogo para a safra, a inflação e os juros no Brasil

Como um fenômeno climático pode influenciar a safra, a inflação e até os juros no Brasil? A análise mostra os possíveis efeitos do El Niño sobre o agronegócio, os preços dos alimentos e a economia, e por que o mercado acompanha sua evolução com tanta atenção.

Modelos climáticos indicam probabilidade de 97% de o fenômeno persistir até o início da primavera do hemisfério norte em 2027, com 81% de chance de atingir intensidade "muito forte" entre outubro e dezembro de 2026. O episódio mais recente de grande força ocorreu entre junho de 2023 e abril de 2024, com pico em dezembro de 2023, quando a temperatura do Pacífico chegou a 2°C acima da média histórica.

Chuva desigual pelo país

A distribuição das chuvas tende a variar bastante pelo território brasileiro. O Sul deve receber volume acima da média, enquanto Norte e Nordeste correm risco de estiagem mais severa, e o Centro-Oeste, incluindo o Matopiba, polo do agronegócio de grãos, deve conviver com irregularidade nas precipitações. O histórico climático já mostrou como esses desequilíbrios pressionam os preços dos alimentos: na safra 2015/16, o feijão acumulou alta de 135% em doze meses sob efeito do El Niño daquele período, enquanto em 2024 o mesmo grão avançou 5,7%, sinal de que a cadeia produtiva ganhou capacidade de amortecer choques climáticos.

Bilhões em jogo no Plano Safra

Para sustentar a produção diante da incerteza climática, o governo destinou R$ 525,1 bilhões ao Plano Safra 2026/27, sendo R$ 384,9 bilhões voltados a custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos. O volume de recursos funciona como amortecedor para o produtor rural, ainda que não elimine o risco de quebra de safra nas regiões mais expostas à seca.

No episódio de 2023/24, o El Niño adicionou 0,90 ponto percentual à inflação de alimentos naquele ano e mais 1,26 ponto percentual no primeiro semestre de 2024. Para o ciclo atual, a estimativa é de um impacto mais contido, de cerca de 0,40 ponto percentual sobre o IPCA cheio em 2027. A MAG Investimentos projeta crescimento de 1,6% do PIB em 2027, mas reconhece que a projeção pode ser revisada para baixo conforme o fenômeno evoluir: safra, inflação e juros seguem interligados em um mesmo efeito dominó.

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